sábado, 17 de abril de 2010

A MASCARA DA MATERNIDADE

Criar filhos talvez seja a tarefa mais difícil que as pessoas realizam na vida e, apesar disso, a sociedade oferece a essa tarefa menos preparo do que a qualquer outra. Estamos despreparados para a maternidade. Não só para a trabalheira insana, mas sobretudo para os conflitos e transformações profundas que vem com ela. Há uma crença generalizada de que questionar os fundamentos da maternidade é como questionar o ar que respiramos. Da mesma maneira, nenhuma mulher madura pode falar com segurança sobre as muitas e grandes alegrias da maternidade sem reconhecer todos seus muitos e grandes sofrimentos. O termo que hoje as mulheres usam mais do que qualquer outro para descrever como administram sua vida é “malabarismo”. A maternidade é uma das bolas que estamos tentando manter no ar. No entanto, ela não é apenas uma das coisas que fazemos, e que suspeitamos estar fazendo mal. Quando se trata da questão de criar os filhos, nossa sociedade nos dá a seguinte resposta: “Você vai logo descobrir, meu bem.” Porque as mulheres partem da expectativa de conciliar a maternidade com o resto da vida e acabam com a realidade do malabarismo? Pesquisadores do Reino Unido descobriram que metade de todas as mães com filhos com menos de cinco anos apresentam sintomas de intenso sofrimento emocional regular ou continuamente. Não é toda mãe que da conta do recado. E um mito que dá. E uma grande mentira. Nem toda mãe dá conta, mas só algumas tem a coragem de admitir isso. O esforço exigido para dar a impressão de não haver esforço algum é titânico. O choque de ser inteiramente responsável por alguém deixa as mulheres vulneráveis no plano emocional, e sua vida se torna literalmente desequilibrada. Muitas mulheres tem a impressão de que as exigências de ser responsável por alguém são injustas, mas é raro elas expressarem esse sentimento. No entanto, mais perturbadora ainda é a percepção de que o velho senso de justiça da pessoa transformou-se de repente em relíquia, em exotismo, em vestígio de idéia que se tornou irrelevante de súbito, com o corte de um cordão. O corte do cordão umbilical é a linha de partida tanto da vida de um bêbe recém-nascido como da identidade de sua mãe recém-nascida. E difícil dizer para qual dos dois os ajustamentos vão ser maiores. Os rigores de amamentar de dia e de noite, de trocar fraldas, limpar e tranqüilizar um bêbe recém-nascido são chocantemente subestimados no discurso oficial sobre criação de filhos. Os efeitos da privação prolongada de sono mal são mencionados nos textos-padrāo. No entanto os problemas de sono é praticamente epidêmico entre as mães de filhos pequenos. Estou convencida de que há uma ligação direta e empírica entre a difundida privação de sono entre as mães e o esterótipo da mulher aérea. Não dormir o suficiente, ou ter um sono interrompido a toda hora, tira os pés do chão mesmo. Alem disso, confirma indiscutivelmente o medo secreto da mulher de não ter mais lugar em sua própria vida. Quanto maior a autonomia de que uma mulher desfrutava em sua vida antes da maternidade, tanto mais agudamente vai sentir sua perda assim que a grande linha divisória for transporta. Ao mesmo tempo, essas mulheres amam seus filhos tão absoluta e ferozmente quanto as mães sempre amaram. No entanto, sua percepção desse amor como uma mistura de bençāo e maldição e tanto mais consciente quanto mais aguda Sentir ambivalência a respeito da maternidade e uma coisa. Expressá-la - é , por extensão, legitimá-la - é outra bem diferente. A Máscara da Maternidade garante que a face da ambivalência, por mais comum ou agudamente sentida, continua sendo um segredo culpado. A disposição em reconhecer a ambivalência e a incerteza não é um sinal de fraqueza, é sim um indicio de resiliência e maturidade rara. De uma forma muito profunda, uma mulher que tem seu primeiro filho deixa de ser ela mesma por um longo tempo. Por mais que tenha querido o bêbe, por maior que tenha sido a felicidade sentida com sua chegada,por mais ajuda que tenha em casa, mesmo assim você vai ser obrigada a trocar a pele de seu antigo eu individual e deixar crescer outra nova com espaço suficiente para essa pessoinha-que-ainda-nao-e-bem-um-individuo. Essa troca de pele, embora potencialmente cheia de calor e assombro, é fundamentalmente corrosiva e irritante. Mas eu suspeito que a culpa seja o ele mento mais corrosivo de todos - o medo constante de que, pelo fato de esses sentimentos serem muito raramente reconhecidos e expressos entre as mulheres e contradizerem tão completamente a Máscara da Maternidade de nossos dias, deve haver algo de terrivelmente errado com eles. Toda mãe, exceto ela própria, é serena. Toda mãe tem certeza que a raiva, a exaustão física, o desejo desesperado de duas horas consecutivas de privacidade sem culpa são sentimentos que só ela tem... e que suas amigas achariam que havia algo de estranho ou errado com ela se soubessem. O que exatamente são as circunstancias de nossa vida de mães? A primeira é que ser mãe de filhos pequenos é uma experiência vivida em isolamento, longe do que a maioria de nos passou a considerar o mundo de verdade. Esse isolamento é tanto físico, implicando uma espécie de prisão domiciliar, como emocional e intelectual. A segunda condição da maternidade contemporânea é que a maioria das mulheres que são mães de filhos pequenos, independentemente de seu estado civil, vive basicamente como se fosse mãe solteira, assumindo a total responsabilidade pelas tarefas exigentes e continuas associadas ao cuidado das crianças e as tarefas domésticas. Para muitas mulheres, o resultado é um coquetel letal de solidão, fadiga crônica e pânico. Nessas circunstâncias, seria surpreendente se a gente não pirasse. Não temos sombra de duvida de que vale infinitamente a pena criar nossos filhos. Só que, na verdade, preferíamos estar fazendo outra coisa. Muitas dizem “vou dedicar 3 anos a ela”, como se a criança não fosse mais precisar da mãe e pudesse ir sozinha de carro para a creche ou para a escolinha. Como se a maternidade fosse um período para dar continuidade aos estudos, ou para passar um anos em um pais estrangeiro, as mulheres entram cada vez mais nessa viagem com uma espécie de falso escrúpulo. Começamos determinadas a tirar o maior proveito possível dela enquanto durar - e acabamos pasmas ao descobrir que a opção pelo modo de vida que queríamos ter não é uma fase pela qual uma mulher passa, mas uma mudança sísmica de identidade e consciência da qual não existe possibilidade de retorno. Não se trata de ferias. E mais uma migração em larga escala. “As mães devem ser serenas”, a Máscara da Maternidade lembra ao mundo e a suas usuárias. Mas ser mãe de um bêbe realmente produz alguns dos mais intensos sentimentos de pânico, medo, raiva e desespero que os adultos são capazes de experimentar. Os homens de nossa sociedade não desfrutam o luxo, ainda exigido por muitas mulheres, de optar por um trabalho remunerado. Ou participam da força de trabalho remunerada, ou são considerados (e se consideram eles próprios) uma aberração. O que é tão injusto quanto discriminatório. Significa que, na verdade, os homens têm menos - e não mais - alternativas de modo de vida entre as quais escolher. Ao mesmo tempo, menos alternativas significam menos ansiedade. Os homens falam sistematicamente de graus maiores de satisfação com a vida conjugal e familiar do que as mulheres. Têm menor probabilidade de pedir divorcio ou separação, dizem sentir mais confusão e ressentimento quando o casamento acaba e tem muito mais chances de voltar a se casar logo. Para os homens, a vida em família - que se traduz quase universalmente em emprego de período integral e PATERNIDADE PERIFERICA - ainda funciona bem. Para as mulheres, funciona cada vez menos. O preço que estamos pagando por nossos “privilégios” recém-conquistados e altíssimo - em termos de acomodação emocional é de puro e simples desgaste energético. Em vez de “ter tudo”, descobrimos que “estamos fazendo tudo”. Casamos e nos tornamos mães com a expectativa de que nossa vida de independência e realizações continuaria fundamentalmente inalterada. Esperávamos dividir a criação dos filhos, dividir a carga de tarefas domésticas, dividir a carga das responsabilidades financeiras com nossos homens. Levamos um choque ao descobrir - e muitas vezes ficamos envergonhadas demais para reconhecer - a distância a que chegamos desse ideal. Uma queixa comum entre as mulheres de hoje é que seus companheiros continuam a ver suas contribuições domesticas como “ajuda” - como em “eu ajudei você a limpar a casa durante o sábado inteiro. O que mais você quer?” Mesmo as famílias com uma renda suficiente para pagar uma boa parte da carga domestica, as tarefas de administrar a ajuda - de encontrar alguém, de se comunicar e de pagar a babá ou enfermeira, de organizar a faxina ou mandar passar as roupas, e até de planejar as refeições para a viagem - recaem quase exclusivamente sobre as mulheres. A premissa é de que e ela quem esta sendo substituída pala ajuda paga, que e seu tempo que esta sendo “liberado” por esse trabalho. Essa mesma lógica extremamente tradicional dita que a soma de todas as despesas com os cuidados com as crianças e com a casa é deduzida do salário da mãe. Em muitos casos, considera-se que a mulher conquistou o privilégio de participar do mercado de trabalho se e somente se o dinheiro que ela leva para casa excede significantemente o custo de substituí-la Não tenho duvida de que a privação de sono é o principal fator do estado precário de saúde mental das mulheres durante os primeiros anos da maternidade. Também é o menos pesquisado. Pubicamente, alimentamos o mito de que , assim que o bêbe começar a “dormir a noite toda”, aos 3, 4 ou 6 meses de idade, o problema esta resolvido. Na esfera privada, a realidade do sono interrompido durante a noite em geral dura anos - até a criança ir para a escola, e mesmo depois. Nas famílias com dois ou mais filhos, o período em que a mãe pode esperar ter seu repouso interrompido rotineiramente pode durar dez anos ou mais. Para as mães que tem um emprego remunerado durante o dia, a desvantagem invisível da falta de sono pode se tornar um pesadelo nas horas de vigília. Mas, seja como for, a grande maioria enfrenta a batalha em silêncio, vivendo como sonâmbulas e com a temporãs latejando praticamente o tempo todo, sonhando acordadas com um sono ininterrupto durante a noite toda da mesma maneira com que as outras pessoas tecem suas fantasias com sexo selvagem ou com ganhar na loteria. Em qualquer outro contexto, condenaríamos essas condições como uma forma de tortura, mas no contexto da maternidade, em que as máscaras que as mulheres usam são quase tão impenetráveis para nós mesmas como para os outros, nossos esforços, alem de não receber loas, passam completamente despercebidos. Ter filhos pode enriquecer ou não um casamento. Mas não há duvida nenhuma de que vai ser um teste para nossas idéias de convivência em que muito poucos conseguirão passar; para a maioria, vai ser desilusão pura e simples. Nosso êxito em imaginar é, em parte, viver uma visão igualitária de parceria sexual dificultou-nos perceber o fracasso de estender essa visão - na teoria e na prática, ao projeto de criação dos filhos. Com o surgimento do primeiro filho, vai haver uma divergência marcante de interesses e atividades do casal - um aumento dramático do fosso entre o mundo “dele” e o mundo “dela”. E a direção dessa divergência vai ser ditada pelas definições tradicionais dos papeis de gêneros. Por mais igualitário que um casamento tenha sido antes dos filhos, depois deles a atração gravitacional desses papeis de gênero vai exercer uma forca que, não maioria dos casos, parece irresistível. O nascimento do primeiro filho costuma dar inicio a uma crise de relações industriais dentro de casa. As mulheres, que na maioria dos casos vão fazer seis vezes mais tarefas domesticas do que seus companheiros antes do nascimento, descobrirão que sua carga de trabalho não remunerado praticamente dobrou. Uma grande parte desse aumento será tempo dedicado ao cuidados básicos com o filho. As mães vão dedicar aproximadamente 21 horas por semana aos cuidados básicos com cada filho em idade pré-escolar. Para os pais, mesmo nas famílias em que as mães também participam do mercado de trabalho remunerado, o tempo gasto com cuidados básicos som os filhos e insignificante. A contribuição do marido para o trabalho domestico geral da família aumenta em apenas uma hora por semana, quer sua mulher esteja trabalhando dez ou quarenta horas semanais em um emprego remunerado. Ate agora falamos somente do numero de horas que uma nova mãe vai trabalhar sem receber um tostão; igualmente importante e a qualidade desse trabalho e a forma como e visto. O trabalho de mãe, que na maioria dos casos continua ligado as tarefas domesticas, e uma combinação paradoxal de intenso esforço físico e resultados externos invisíveis. A maioria das tarefas domesticas e repetitiva e focada na manutenção, e a maior parte delas e realizada em um vácuo social. Em resumo, e o tipo do trabalho que só e notado quando não e feito. A mãe tem maior probabilidade de atuar como “administradora psicológica das tarefas”, com a carga diária das necessidades cotidianas da criança na cabeça, desejando que o pai participasse mais nisso. São as mulheres que pensam o tempo todo nas fraldas que precisam ser lavadas, nas unhas que precisam ser cortadas, nas roupas novas que precisam ser compradas. Também se preocupam em marcar a consulta no medico e hora com a baba, preocupam-se com o surgimento dos primeiros dentes do bebe, se ele esta com uma infecção no ouvido ou só fazendo birra, ler o livro sobre crianças pequenas para saber qual e o próximo estagio de seu desenvolvimento, pesquisar escolhinhas maternais e entrar nas listas de espera - recai sempre sobre os ombros da mulher. Não há como evitar que o cansaço resultante cobre seu tributo sobre o próprio casamento, e em particular, sobre a relação sexual dos cônjuges. Não há duvida de que a diferença em termos de fadiga tem conseqüências enormes e geralmente desastrosas para a intimidade de vida conjugal depois da chegada dos filhos. Embora muitas pesquisas relevantes tenham se concentrado no impacto de curto prazo que os filhos tem sobre a vida sexual dos pais, tudo indica que as conseqüências são, infelizmente, de longo alcance. Para as mães com filhes de ate quatro ou cinco anos de idade, as perspectivas de uma noite de sono ininterrupto assim que a cabeça encosta no travesseiro continuam mínimas. Nas primeiras semanas e meses haverá inevitavelmente demandas por alimentação, troca de fraldas e chupeta. Mais tarde ainda, vai ser a dentição, ou o fato de a criança ter rolado para fora da cama ou ficado descoberta. Mais tarde ainda, vai querer tomar água, ter pesadelos ou necessidade de ir ao banheiro. Quando há mais de uma criança pequena na família, as demandas por atenção durante a noite podem dobrar ou triplicar. A causa mais obvia para a redução da libido das novas mães e o cansaço. A pergunta “ o que que as mulheres querem?” pode ser respondida com muita facilidade no caso das mulheres que acabaram de ter um filho. O que elas querem e dormir, e, senão for sono, ao menos um repouso que não seja interrompido. E um assunto sobre o qual nossa educação pré-parto, nossos manuais e guias de auto-ajuda para a criação de filhos mantém no mais casto dos silêncios. O problema da sexualidade nos primeiros tempo depois da chegada do bebe torna-se mais complexo ainda a medida que nos distanciamos do período de choque de seis semanas depois do parto. Os pesquisadores definem dormir a noite toda como o sono ininterrupto entre meia-noite e o amanhecer. Esta perfeito para o bebe, no entanto, para a maioria das mães, ainda significa pelo menos uma interrupção do sono por noite para alimentar a criança. Muitas e muitas mães continuam achando que 9 e meia e tarde da noite para estar de pé, ao menos ate a criança entrar para a escolhinha maternal. A hora de dormir de seus companheiros parece, ao contrario, sofrer poucas alterações com a presença do primeiro filho. Na verdade, as mulheres dizem que seus companheiros parecem nunca ter ficado acordados ate tão tarde. Essa tendência a horários diferentes para dormir aparece nos primeiros dias do pós-parto; mas persiste muito tempo depois, com conseqüências obvias para as relações sexuais do casal. Alem da falta de sono ou, como e mais comum acontecer, conjugada a ela, praticamente toda mãe de filhos pequenos enfrenta o problema adicional de pura e simples sobrecarga tátil. As mulheres que assumem o grosso dos cuidados com os filhos pequenos passam necessariamente uma boa parte de cada dia - e muitas vezes da noite também - em contato direto de pele com corpos vivos e exigentes. Muitas mulheres que resistem bem ao estresse dessas demandas dizem que, apesar disso, ficam cheias de “não-me-toques”. Em síntese: observamos que, para a vasta maioria dos casais, a transição para a paternidade/maternidade vai criar uma miríade de fatores estressantes e imprevistos. O trabalho vai ser dividido cada vez mais desigualmente entre os cônjuges, com as cargas físicas e psicológicas de cuidar das crianças e da casa recaindo sobre os ombros das mulheres, quer elas trabalhem fora, que não. Apesar do amor de ambos os cônjuges pelo filho que começou essa historia toda, a maioria dos casamentos vai mostrar um claro pendor pela divergência. Os papeis reservados aos homens e as mulheres, por mais convergentes que tenham sido antes, vão tender a se diferenciar rápida e inevitavelmente depois do nascimento do primeiro filho. E o rumo dessa diferenciação vai ser determinado pelo tipo tradicional de cada gênero. Para todos nos que chegamos a maioridade com expectativas de oportunidades iguais, inclusive o novo ideal de “dividir a criação dos filhos”, essas mudanças serão vividas como fatores estressantes. Para muitos casamentos, serão claramente desastrosas. A MASCARA DA MATERNIDADE By Susan Maushart

Um comentário:

Anônimo disse...

Vc apareceu ate quem fim querida. estava com saudades. Como estão as princesinhas? Coloca fotos novas delas. Ser mãe realmente ñ e nada facil, mas estamos aqui pra isso mesmo. nascer, crescer, multiplica e depois morrer rsrs. Quem nascir mulher, nascir uma guerreira pq ñ e nada facil ser mulher e ao mesmo tempo ser mãe, amiga, companheira, e esposa. Deixo um grande bjo
BRUNA & ALICIA & SIMON