sexta-feira, 16 de abril de 2010
Nascer é ou não é algo natural? Humanizar, é preciso!
Nascer é sem dúvida um acto natural como tantos outros, mesmo no caso dos seres humanos. Ninguém parece contestar esta afirmação, pelo menos, em teoria. Mas então porque será que o nascimento do ser humano em Portugal se afastou tanto de algo natural nos últimos 40 anos?
A resposta parece estar no alto grau de inteligência que o homem possui e que o afasta dos vulgares animais e do que é natural. Assim, temos o homem a construir veículos para se deslocar que como consequência trazem a contaminação atmosférica, a chuva ácida, o aumento das doenças respiratórias e outros problemas de saúde associados à falta de actividade física. O homem utiliza a sua inteligência para desviar rios cujos cursos são mais tarde corrigidos pelo inmesurável poder da natureza. É o único animal que usa a sua capacidade de invenção para construir artefactos de destruição maciça, precisamente para se auto-destruir.
Mas nem tudo parece ser mau. Ele usa a sua inteligência para criar antídotos para os problemas que ele próprio fabrica: para a obesidade criam-se as dietas, os ginásios, as cirurgias plásticas, os nutricionistas, etc.. Para as guerras criam-se os armamentos “defensivos” como as bombas atómicas, os antimísseis, as defesas tipo “guerra das estrelas”, etc.; Para a fome criam-se as agências humanitárias que por não poderem entregar os recursos a quem precisa, pedem a essencial colaboração de forças armadas internacionais; Destroem-se habitats naturais que subsistiriam sem custos e em perfeita harmonia e criam-se as reservas naturais muito dispendiosas e com um equilíbrio precário. Enfim, o homem cria o problema mas logo inventa um antídoto.
Não seria mais sábio e prudente apenas... não criar o problema?
No nascimento foram criados um grande número de procedimentos escudados na necessidade de salvar vidas de bebés e/ou mães que eventualmente pudessem estar em perigo. Isso é extraordinário! Porém, por causa de, no fundo, saber que não pode controlar todos os acontecimentos, o homem inteligente decidiu que era melhor “não arriscar” e então criou esses procedimentos mais ou menos intervencionistas. A ciência que, para além de evitar - e muito bem - a morte de uma ínfima parte de seres humanos ao nascer, decidiu - e desta vez mal - que seria melhor intervir em “todos” os restantes nascimentos, apenas para prevenir. De repente a mulher deixou sequer de imaginar que parir é algo natural e fisiológico. Voltamos assim ao início desta exposição.
Afinal nascer é ou não é algo natural? Agora, muitos, a maioria, parece dizer com os seus procedimentos que na realidade nascer não é algo natural! As mulheres dizem frequentemente: “Nem pensar ter um filho fora do hospital!”
Lemos constantemente as recomendações para evitar as visitas desnecessárias aos hospitais, as intervenções cirúrgicas ou medicalização desnecessárias, mas diz-se à mãe que vai parir um bebé que vá fazê-lo dentro de um hospital onde, para além de todos os riscos inerentes à simples entrada no hospital, ela e o seu frágil bebé terão garantidos um largo leque de procedimentos intervencionistas e uma boa dose de medicamentos com mais ou menos contraindicações, humanismo raramente.
Vejamos outro exemplo pelo seu lado positivo. A pediatria tem como uma das suas bandeiras a não intervenção desnecessária, porque isso prejudica o normal equilíbrio psicológico e até físico da criança. Espantoso! O mesmo homem do qual temos estado a falar chegou a essa interessante conclusão naturalmente “humana”. Muitas dessas recomendações, seguidas à risca, são emanadas de organismos internacionais credenciados. Segundo parece, para o mundo médico pediátrico isso é claro e não oferece qualquer dúvida ou contestação. Então, porquê tanta resistência em alterar hábitos que não são nada naturais, mas já amplamente comprovados como ineficazes ou até contraindicados do ponto de vista puramente técnico?
A mulher tem direito a ser respeitada durante a gravidez, o parto e puerpério, por todos os intervenientes do sistema de saúde. Deram-se, em Portugal, passos gigantes no que diz respeito aos cuidados médicos tanto na gravidez como no puerpério, talvez porque muitos desses cuidados são prestados nos centros de saúde onde os médicos conhecem os seus doentes e até criaram laços de amizade com eles.
Mas ainda há um longo caminho a percorrer no campo da intervenção hospitalar nos 3 estágios da primeira fase da vida humana, antes, durante e logo após o parto.
Como sempre, também existem honrosas excepções de médicos, enfermeiros, auxiliares e até serviços completos de obstetrícia que praticam alguma assistência humanizada digna de louvor. Nalguns dos partos dos meus nove filhos, aos quais assisti, eu próprio presenciei parteiras e auxiliares a chorar após um final feliz. Assisti aos esforços para evitar uma episiotomia. Surprendeu-nos o convite feito pela parteira do meu 5º filho de ser a mãe a segurar o seu filho a meio da expulsão, brindando-nos assim com uma sensacional imagem humana que jamais esqueceremos e que ficou gravada também em vídeo. Lembramos uma médica e uma parteira que fizeram questão de ir visitar o bebé e a mãe na enfermeria. Que bem nos sentimos por essa atenção! Enfim, nem tudo está mal mas muito precisa ser mudado. Tivemos algumas más experiências, mas essas também nos dão força para percorrer o caminho da humanização do parto em Portugal. Inúmeros testemunhos de mães portuguesas corroboram a urgente necessidade de humanizar.
A HumPar – Associação Portuguesa Pela Humanização do Parto quer sensibilizar, quer informar. No fundo, a nossa grande missão é devolver ao parto a sua verdadeira dimensão humana! Convidamos todos, mães, pais, profissionais de saúde e população em geral a embarcar nesta luta.
Américo Torres
Secretário Geral
HumPar – www.humpar.org
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